O porquinho Prático e a amizade do lobo
Ricardo Macedo dos Santos
Um lobo pode fazer amizade com um porquinho? Pois este que vou apresentar a vocês conseguiu um relacionamento singular e inteligente com um porquinho trabalhador, chamado “Prático”, por ser trabalhador e previdente.
Essa amizade aconteceu quando Prático estava construindo sua casa de tijolos. O porquinho queria acabar rápido, porque estava em época de chuvas e onde morava havia muita goteira e não tinha proteção alguma contra possíveis invasores. Foi assim que Prático procurava alguém para ajudá-lo, que tivesse algum tipo de experiência e, principalmente, que fosse um bom trabalhador. O lobo soube do anúncio, procurou-o e assim começou a trabalhar na construção de uma casa sólida, de tijolos, impenetrável por animais que quisessem subtrair alguma coisa do porquinho.
Trabalhou, trabalhou, dias, tardes, noites, madrugadas, mais dias, semanas, meses, até que conseguiu completar seu serviço e ainda recebeu abraços e um prêmio extra no seu salário final. Ali se iniciou algo que jamais alguém poderia ter lido em livros de histórias infantis, ou em revistas em quadrinhos. Era um acontecimento raro. Jamais Monteiro Lobato poderia supor uma união fraternal de dois personagens tão antagônicos. Nem toda a literatura infantil mundial supôs tal coisa. Personagens como esses aqui relatados tinham que evidenciar certa verossimilhança. Imagine um lobo e um cordeiro juntos. Nem pensar. Pense num lobo e um coelho juntos. Impossível! Agora, tente conceber um lobo e um porquinho sendo amigos! Nem em sonho de maritacas. Pois aconteceu.
A questão não é simplesmente se escandalizar, falar mal do contador de histórias ou perceber que tudo o que aqui foi narrado é falso. Não, esse é um ledo e estúpido engano. O que mais sobressai nessa amizade é a atitude indolente, apática mesmo, dos outros dois porquinhos, irmãos de Prático que a tudo assistiram e nada fizeram. Não esboçaram qualquer comentário, mesmo sabendo que lobo não pode gostar de porco, porque lobo é um predador nato e um animal abjeto, temido pelos demais. Os porquinhos já tinham lido um pequeno Novo Testamento achado em um carro de bois e lá estava escrito que o lobo era um animal que dizimava ovelhas e por causa disso sempre foi necessária a permanência de um pastor cuidando do rebanho para que os animais não fossem devorados. Mesmo assim assistiram a tudo e não se opuseram.
Os animais da redondeza fizeram uma manifestação. Convidaram a Rede Globo, para denunciar o perigo. Chegou a passar no jornal nacional e tudo. Representantes de grupos protetores dos direitos dos animais protestaram veementemente. Tudo em vão.
Acabada a construção da casa, o lobo despediu-se de Prático e foi embora para a montanha. Todos os demais bichinhos tiveram temor naquela noite. O que o lobo realmente queria? O que planejara contra o porquinho? Por que não obedeceu ao seu instinto animal? Por que não fez logo a festa, devorando Prático? E ficaram assim pensando.
Os outros porquinhos, de repente começaram a refletir, a matutar e resolveram também construir suas casas com tijolos, iguais a de Prático. E o que fizeram? Chamaram o lobo, o mesmo lobo que ali estivera e realizara um trabalho de mestre. O lobo aceitou e disse que voltaria no dia seguinte.
Naquela noite, em plena escuridão, quando o silêncio já caía inerte sobre o lugar, uma alcateia começava a descer lentamente do morro que cercava as casas dos três porquinhos. À frente o lobo construtor. Já não apresentava o mesmo jeito, seu tom pacato de antes se transformara com um aspecto atemorizador. Passou pela casa do primeiro porquinho e soprou e tudo veio abaixo. Soprou violentamente a casa do segundo porquinho e não restou nada em pé. Chegou então próximo à casa de tijolos que construíra. Lá estavam os dois porquinhos amedrontados atrás do sofá. Prático foi à rua e se deparou com o lobo e seus amigos com muita baba descendo pelos dentes pontudos e brancos. Disse então ao lobo com sua voz enérgica. O que é isso? O que está pretendendo, lobo?

Todos os anos há uma romaria de animais visitando a casa de Prático. Lá colocam flores e rezam pelos porquinhos trucidados. Há muitos discursos durante a visita. Um serviu até de inspiração para que se escrevesse a história dos três porquinhos, mostrando a verdadeira personalidade do lobo. Essa história virou desenho animado, diversos edições de livro infantil, ganhou prêmios e faz parte do imaginário das pessoas até hoje.

(conto extraído do ebook do autor "Eu vi a revolução", publicado pela Amazon)

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