Remanso minimalista
Ricardo Macedo dos Santos

Amanheceu e o silêncio acordou revoltado. Resolveu ficar e anular os ruídos do mundo. Não bastaram o sonido das flores, os latidos impertinentes dos cães vadios, o chilrear dos pássaros, o choro das crianças pedindo colo, o cantar dos pneus dos automóveis da minha rua, e o grito de pamonha do vendedor que passa todo de branco, com luvas e gorro mais parecendo um enfermeiro deslocado de função. No meu ouvido somente o zumbido natural da madrugada dentro da floresta. Todos os barulhos se renderam ao majestoso poder do silêncio. A chuva cai lá fora, e somente soube da sua presença porque minha vidraça revelou-a escorrendo de alto a baixo pela janela. A sensação dessa audição impedida move minha memória para as páginas do livro de Garcia Márquez. Cem anos de Solidão lembram muito bem o vazio fantástico desse momento. Buendía vai ser fuzilado, mas da mesma maneira que o silêncio fez com o som dos tempos, Gabo interrompeu o pelotão de fuzilamento e começou um mundo novo, um tempo circular, num lugar imaginário. Em suspenso, o episódio de Buendía seria este silencio que invadiu de repente o meu mundo real como se imaginário fosse. Receio de que a volta dos ruídos do mundo possam destruir o encanto das flores. Talvez nos cause assombro o estouro incessante das ondas maltratando o dorso das pedras. Quem sabe se ainda não invada o meu atelier e ponha a pique as naus do quadro que agora estou pintando, misturando, por fim, as cores das tintas em um louco arco-íris de sonhos?

(conto extraído do ebook do autor "Eu vi a revolução", publicado pela Amazon)



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